Pastor Darckson Lira & Cultura

A SAUDADE DELE TÁ DOENDO EM MIM

Ao receber na madrugada do dia 7 de setembro, um telefonema de minha irmã Darcy Lira, comunicando em prantos a partida de nosso pai – meu velho Chico Lira - entrei no carro e dirigi-me em lágrimas a casa dela prá irmos até a cidade de Senador Pompeu -onde ele decidiu passar seus últimos dias.

Enquanto dirigia, chorava e uma única frase saia de meus lábios durante todo o trajeto: “Obrigado Deus pelo meu velho pai”!

Homem de raríssima personalidade, daquela estirpe que com raridade somente a cada século se produz, já no ano de 1954, exercendo pela primeira vez o cargo de vereador – seria re-eleito com a inusitada façanha de nunca ter pedido voto – já apresentou naqueles dias passados (bem à frente do seu tempo) projeto ecológico de lei para preservar as margens do rio banabuiú, que corta o sertão central.

Enfrentou grandes inimigos, desafiando de peito aberto oligarquias poderosas do coronelismo, e quando subia ao palanque com seu revólver calibre 38 tendo sempre no bolso algumas balas de reserva, nunca sabia se desceria com vida após seus inflamados discursos defendendo a ética e a cidadania.

Ouvi muitas vezes em frase lapidar: “Meu filho, covardes morrem muitas vezes – o homem só morre uma”.

Perdeu o pai aos 7 anos de idade, e foi às ruas vender “cocadas”, para ajudar no sustento da família pobre.

Abandonou a política e costumava dizer: “Não tenho estômago para continuar naquele meio; aquilo não é atividade para gente honesta”!

Nunca aceitou ser aposentado como político, e viveu o resto de sua vida, recebendo o modesto soldo de 1 salário mínimo!

Foi um idealista desiludido pela realidade dura de não ter conseguido mudar tantos vícios do sistema...

Viveu momentos de extrema bravura, tendo até “ trocado balas”  com pistoleiro de aluguel – não preciso dizer quem teve êxito no confronto – jamais fugindo dos desafios!

Tive o privilégio de me assentar muitas vezes com ele, e tocando meu violão, acompanhá-lo em sua voz potente e afinada entoando antigas canções que nunca vão me sair da memória: “Sertaneja se eu pudesse, se o papai do céu me desse o espaço pra voar, eu percorria a natureza, e acabava com a tristeza só prá não te ver chorar (...) Sertaneja vou embora, a saudade vem agora, a alegria vem depois; vou subir por essas serras, construir lá em outras terras, um ranchinho pra nós dois”.

Ou uma outra, de suas favoritas: “ Ao ver passar no céu as andorinhas, eu sinto saudades do meu bem (...) Vai andorinha, vai ligeira, diz ao meu bem que voltarei; e que depois pra toda a vida, eu nunca mais a deixarei”.

Perdoem-me amigos, não dá mais pra continua a escrever.

Tenho aqui do lado enquanto estou a digitar, meu violão, e um vazio enorme no meu peito, porque não sei quantos anos ainda viverei – mas sei que aqui neste mundo, nunca mais verei meu velho Chico.

Ele disse-me ano passado: “Deixem minha casinha em Senador Pompeu para que, quem sabe um dia um pastor venha morar nela”.

Disse também: “Filho, medo de morrer? Nenhum! O que faz medo é viver”...

Vejo muitos admirando virtudes de grandes homens tão distantes no passado; enquanto conduzia o caixão de meu pai, rogava a Deus entre lágrimas: “Conceda-me a coragem e determinação do Chico Lira”!

Ah meu velho...que dor tão doída!

Vou lembra-me também de sua mão firme  apertando a minha e orando a Deus, de seu sorriso charmoso, e vou lutar para preservar em mim e transmitir aos seus descendentes  que ainda virão, todos os exemplos de honestidade e bravura que você nos legou.

Vai andorinha, vai ligeira, diz ao meu bem que por toda a minha vida, eu nunca, nunca o esquecerei.

Valeu meu velho guerreiro!

 -Te amo, e para sempre vou te amar.

Um beijo do tamanho dessa saudade!

Seu filho.


 

 

 

 
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