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Postado em 15/09/2009
Por Pr. Darckson LIra
Presidente do Igreja Batista Vale de Bênção
 
UM POUCO DO MEU ECLESIASTES
 
Não acredito como - dizia Camus – “que a morte desperte sentimentos de um amor que não possuíamos em vida”, mas creio que - ela nos torna conscientes da nossa loucura, em não dar o verdadeiro valor àqueles a quem amamos, ou, em face do terror iminente de que nós mesmos venhamos a morrer- nos leve à valorização dos dias, minutos ou segundos quando (até então) deixávamos passar desapercebidamente os meses e anos!
Reflexão tardia pela perda física de meu pai? Não! Essa constatação me é recorrente ao longo dos anos, pois lembro bem, que costumava sofrer e chorar quando perdia algum de meus animais de estimação, ainda em tenra idade.
Lamento – e um estóico me repreenderia – a morte de pessoas distantes de minha convivência, e talvez minha fascinação pelo Mistério da Cruz onde “Deus se deixa matar”, e o capítulo seguinte de uma Ressurreição, sejam somente parte do desejo intenso de que a morte não tenha a última palavra!
Por que parece que amamos mais intensamente aqueles familiares e amigos que nos deixaram?
Por que nos angustiamos diante do inimaginável pensamento de que nunca mais os veremos?
Por que parece que nunca  lhes aplaudimos, elogiamos e dissemos o suficiente, o quanto eram especiais para nós?
Porque não admitimos que as pessoas que estão ao nosso redor – e amamos – são as cores de nossa vida, e que quando se vão uma a uma, é como se nossa tela fosse descolorindo, perdendo a beleza e encanto ficando nada mais que um preto e branco?
A vida é tão repleta de cores, e a morte se nos afigura tão medonha e escura...
Será então a causa de tamanha dor – nossa suposição inconsciente de que morremos um pouco com aqueles que morrem?
De que ela nos rodeia, nossos amigos e familiares amados?
O não querer admitir - que assim é - não será o temor de aceitar como fato, que as coisas parecem que nunca mais serão as mesmas, mas, que tudo há de continuar do mesmo jeito que é?
Entendemos que estamos a considerar todas as dores do mundo como sujeitos que não têm outra forma de avaliar senão a partir de si mesmos, e que o que resta para morrer é aquele, e depois aquele outro, e depois...
E depois o que?
Logo faremos parte de um livrinho de estatística, ou, se alguém tiver mais empenho, será citado daqui a 100 anos numa roda de estudantes – a quem definitivamente já não inspirará nenhum afeto, - admiração talvez, mas afeto? ou, quem sabe gerações vindouras nos queimarão incenso?
No fundo sabemos que tudo isso tanto faz!
O que conta então?
Deixemos os assuntos da eternidade para tratarmos naquele foro, e demos valor à vida que teimosamente abre caminho como aquela pequena flor nascendo em meio às ruínas, que com sua fragilidade parece escarnecer de todos os esforços dos ventos e terremotos, que pretendem nos fazer descrer no valor que tem esse milagre que é estarmos vivos!
Acreditemos em vida na eternidade, mas não deixemos de crer na eternidade da vida.
Bendigamos os céus e reverenciemos a terra, porque sangue inocente foi aspergido sobre ela santificando-a!
De nada me importa se as gerações advindas de mim lembrarão, ou se sequer saberão que um dia existi: pois eles também perecerão, e a memória de mim neles.
Mas quem disse afinal que o universo se lembrará disso tudo?
Ele continuará no dia depois de minha partida, exatamente como estava antes que eu aqui chegasse.
Que cada um, desfrute bem o seu banquete ou a sua modesta refeição, assentado em seu casebre ou entronizado em seu palácio, porque amanhã, o corpo que tanto prezas será ele mesmo um banquete!
Serão essas minhas considerações, palavras de um existencialista amargurado? Novamente gritaria com todas as minhas forças que – não!
Antes, são palavras de quem deseja que as pessoas vivam, vivam os sentimentos e pensamentos que têm e não os que outros lhes deram, reverenciem a vida, valorizem os que agora vivem e estão perto, ao invés de cultuar os que agora estão distantes, porque logo, logo, os que aqui estão, seguirão seu próprio destino e não poderemos acompanhá-los, e nós mesmos estaremos num desses dias qualquer, bem longe de tudo isso.
Aos que partiram?
Que os amemos com aquela eterna ternura – enquanto durar os afetos em nós, e que os honremos, valorizando a vida que nos legaram com a explosão do ato do amor, e a persistência e abnegação de uma vida de dedicação a nós.
Não demos espaços para a morte enquanto há vida! Viva amores, deguste  sabores, encante-se com as cores e desfrute o bem – essa é a tua porção aqui nesta terra.
Sente-se à mesa, e deixe atrás de si copos e pratos vazios, e aos que permanecem na sala do banquete, a lembrança agradável de que por ali passou um conviva que soube desfrutar a dádiva daquela festa, honrar companhias e saborear a refeição que generosamente lhe foi servida pelo dono da casa.
Já temos o bastante para nossa viagem pelos caminhos da vida?
Se, julgamos que temos, porque amealhamos mais bens e não cessamos de fazer e refazer as malas, ainda que seja só para admirar por tão breve tempo paisagem tão deslumbrante?
Para onde estamos a correr com tanta ânsia? Que coisas esperamos conquistar para então dizer que começamos a viver?
Não são os séculos constituídos pelos tantas vezes desprezados segundos?
Não sei se sei menos ou mais, ou tanto quanto você sabe dessas coisas - de uma coisa estou bem certo: penso que entendo a cada dia que passa, melhor, a razão porque Jesus fez aquele rasgado e altissonante elogio à mulher que derramou sobre ele o mais caro perfume, e lavou seus pés com lágrimas e enxugou com os cabelos.
Ele disse: “Ela fez boa ação para comigo, ela honrou-me enquanto vivo”.
Entendo mais o que disse o grande poeta Tom Jobim: “Agora eu já sei, da onda que se ergueu no mar, e das estrelas que esquecemos de contar”
Meu Deus!
Como são lindas as estrelas realçadas pela profunda escuridão da noite...
 
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